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CRÔNICA COM O PROFESSOR VALTER SILVA

Valter Silva 


LUTO DE SI MESMO!


Há exatamente um ano a escola vivia o final do ano letivo de 2019 em meio ao tradicional corre corre dos professores para o fechamento de notas de aprovados e reprovados. Todo esse estressante esforço era "anestesiado", porém, pela proximidade das férias e sobretudo, pela possibilidade de ficar em casa relaxando e curtindo a família, em um sonho que a classe docente diz ser apenas dos alunos, mas que também é dos professores em geral.

Veio 2020 e com ele a pandemia da Covid 19. O mundo, então, foi forçado a parar a fim de se proteger de um aterrorizante vírus que não somente matava, bem como proibia a despedida dos parentes e amigos de suas vítimas fatais. A escola, por sua vez, viu-se forçada a fechar seus portões e seus professores passaram a ouvir a todo instante a frase imperativa que tanto os consolava ao longo de suas ingratas e exaustivas jornadas ao final de cada ano: FIQUEM EM CASA!

O que era, assim, um desejo com duração de alguns poucos dias duraria praticamente o ano inteiro. E o que parecia ainda melhor: esses professores não teriam alunos para importuná-los de nenhuma forma, e, tampouco, a diretora e a coordenação  estariam a cobrar compromisso e rapidez para  o êxito no fechamento de mais um ano letivo.

O que vemos, no entanto, nesse final de 2020, é a mais absoluta tristeza, ampla, geral e irrestrita, diante de um tétrico cenário de morte causado pela covid 19 que ceifa ,impiedosa e indiscriminadamente, a vida de irmãos, amigos, esposas, maridos e filhos de docentes, além de muitos deles próprios.

Ficar em casa passava de "sonho de consumo" a um amargurante pesadelo, pois, todos os mestres, até mesmo aqueles que não perderam seus entes queridos, depararam-se com um inesperado luto. 

Tal luto, todavia, de si mesmos, os fizeram derramar invisíveis, mas, aflitas lágrimas sobre os restos mortais de seus egos apegados às vaidades, aos prazeres mundanos e, especialmente, a um sujeito interno, tido, por eles, como verdadeiro, mas, que, na verdade, é apenas um pseudo eu físico e mental que, agora, cada um dos tristes e inconsoláveis professores auto sepulta com a decepcionante sensação de que não há mais encantos; que perderam tudo e que, enfim, não encontrarão mais nada.

Ainda entorpecidos pela nostalgia da vida velha que se foi, onde existir é como uma doença, uma vez que as realizações mais íntimas são deixadas de lado pela adequação a um modelo de sociedade narcisista e consumista, os enlutados professores não conseguiram de antemão entender as sábias e sagradas palavras de Jesus, o maior dos Mestres, enfatizando que bem-aventurado e feliz é o homem que chora sobre o túmulo de seu ego morto. Embora pertencentes a um contexto social de uma época marcada pela depressão, esses insipientes educadores, vistos como objeto, que compram ou que são comprados  e cuja individualidade depende sempre da aprovação dos outros, ainda não suspeitavam ou sequer adivinhavam qualquer felicidade depois dessa morte e desse luto.

Distanciado da realidade da vida contingente, cheia de incertezas e de dúvidas, o professorado, a exemplo de qualquer ser humano pós moderno, comodamente, preferia, antes, ignorar que vida e morte são matérias normais do cotidiano. Contudo, em face do compulsório isolamento de suas frágeis e imperfeitas relações humanas, onde impera a valorização exclusiva da imagem, viram-se, efetivamente, forçados a aceitar que sofrimento e alegria são igualmente faces de uma mesma moeda: a moeda do existir.

Reclusos em seus lares e não mais imersos em uma sociedade narcista na qual o conflito entre o eu e o mundo gera uma sobrecarga emocional típica de um ambiente permeado de exigências, os professores, finalmente, começaram a aceitar a vida em seu sentido real; não tendo que ostentar ou manter aparências a fim de agradar os outros; encontrando, pois; a afirmação de si mesmos ao aceitar a vida tal como ela é.

Assim, aqueles que encontraram o Eu divino do homem, redimidos das misérias do ego humano, passaram a contemplar de cima todas as coisas da terra. Lá se foi, então, a infeliz satisfação daqueles que viviam em uma sociedade narcotizada pelo dinheiro, por sexo e por outros divertimentos, onde o consumo mais do que chamar à atenção era também um eficaz meio de fuga de uma vida estressante, cheia de conflitos e de traumas. De uma vida, em suma, absolutamente vazia.

Foi-se, também, sua feliz insatisfação que, fechando todas portas para o mundo exterior e enclausurada nas entranhas de seu próprio ser, mostrava a exata dimensão do que disse o sapiente  Mestre sobre a felicidade e o consolo daqueles que choram.

Agora, ao despontar pleno de uma feliz satisfação de hoje e de sempre, nossos ex-agoniados professores já não esperam poder trocar suas tristezas por quaisquer consolação terrena; mas, sim, apenas conservar a clarividência da contemplação contínua da realidade do seu Eu verdadeiro para além de todas as ilusões de seu falecido ego superficial, pois, finalmente, compreenderam, que a felicidade não é algo que o homem recebe de fora, mas que eles mesmos são essa felicidade quando conscientes de sua realidade divina de dentro.


VALTER SILVA é professor e poeta.

Filadélfia Bahia, Dezembro de 2020.

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