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MULHER: DE RAINHA E RECATADA DO LAR A OBJETO DE CONSUMO


Comemoramos no dia 08 de março do pandêmico ano de 2021, em meio a elogios, incentivos e manifestações de respeito e de gratidão, o já histórico e tradicional Dia Internacional da Mulher. Contudo, mesmo em face das significativas mudanças percebidas na atualidade acerca da condição feminina, a mulher da nossa época continua a sofrer uma nítida subjugação por parte do poder masculino, como triste herança dos resquícios arcaicos do patriarcalismo conservador que prevalecem incrustrados nas relações sociais em nossos dias.

A dominação completa sobre o modo de ser da mulher, ainda submetida sem apelação ao controle do macho, é a característica mais marcante dessa cultura patriarcal, cujo poder dominador, ao longo do tempo, se revestiu de uma indumentária tão inquestionável que as próprias mulheres, silenciadas em suas aspirações de autonomia existencial, perante o arbítrio dos homens, acabaram naturalizando o sistema hierárquico sexual com o selo machista.

Nesse contexto, regido por uma mentalidade absolutamente fechada, a mulher, afastada da produção social, foi, então, convertida na primeira criada da história universal a partir do momento em que a administração do lar se transformou em serviço privado. Somente nos dias de hoje a grande indústria abriu novamente o caminho para a produção social feminina, todavia, agora, apenas na condição de proletária.

Isso aconteceu de tal modo que ao optar pelo cumprimento de seus deveres no serviço privado da família, a mulher ficaria excluída do trabalho público e, portanto, nada poderia ganhar. Caso sua opção fosse pela participação na indústria pública, teria que cumprir paralelamente também todas as obrigações domésticas, o que praticamente tornava impossível seu trabalho remunerado.

Ajudando, assim, a consolidar o papel doméstico de zeladora do lar sob o controle do marido, que por adquirir a riqueza e o sustento do lar tomava posse também da direção da casa, a mulher foi ainda mais degradada ao ser, além de serviçal, convertida em escrava do prazer e em mero instrumento de reprodução. Esse rebaixamento, que já aparece desde os gregos dos tempos heróicos, tem sido hoje progressivamente maquiado ou até revestido de formas mais suaves, no entanto, de modo algum, eliminado.

O preconceito de que a mulher não possui aptidão para exercer determinadas funções superiores, sobretudo a gestão política ou cargos administrativos, persiste no imaginário patriarcal da presente estruturação de nossa sociedade. É comum que muitos homens subordinados à autoridade da mulher se considerem inferiorizados moralmente por tal circunstância que costumam depreciar, aberta ou veladamente, imputando ilegitimidade a qualquer forma de empoderamento feminino.

Nesse sentido, não podemos analisar como mero discurso engraçado o dito popular: "Mulher no volante, perigo constante", pois o mesmo retrata azedamente a dificuldade que a postura machista apresenta em aceitar a liderança feminina. Da mesma forma, quando o estúpido machão afirma que lugar de mulher é na cozinha, por ser o fogão a única coisa que ela é capaz de pilotar, este homem, utilizando a violência simbólica, diminui a dimensão humana da mulher, colocando-a como alguém desprovido de autonomia e à margem da organização social.

Em uma sociedade de espírito colonial e misógino o homem sempre procura desestimular a mulher a construir uma imagem pública de visibilidade igual à dele próprio. Para tanto adota um sufocamento moral que jamais mede esforços para silenciar ou para impedir o desenvolvimento de uma existência socialmente participativa da mulher, considerada por ele como propriedade privada pertencente a ele e feita para ser sua bela e recatada rainha do lar, todavia, sem maiores exibições públicas.

Todo esse padrão comportamental, emergido de um passado opressor como forma de inviabilização da mulher, expressa uma clara recusa à sua existência legítima e pública; isto é, conhecida e reconhecida principalmente pelos direitos, mas, também, por não sofrer qualquer censura ao atuar como agente político na sua luta por reconhecimento ou por visibilidade.

No presente, a mulher é, de forma contínua, ainda mais coisificada, sobretudo no âmbito da sexualidade; pois se o homem, antes, na época colonial, podia copular com a quantidade de mulheres que a sua performance sexual permitisse;  agora, em pleno apogeu da sociedade consumista, influenciado por diversas marcas que agregam valor a seus produtos; associando a imagem da mulher a seus padrões e normas fetichistas e  exercendo, enfim, um poderoso efeito na sensibilidade masculina, o homem atual é levado a uma viciosa prática de aquisição desses produtos que se configuram simbolicamente como a própria capacidade de obter a adesão sexual da  mulher, uma vez que tais  objetos ao serem adquiridos  teriam, supostamente, poderes especiais que permitiriam a subjugação feminina ao crivo fálico do homem pós moderno.

Desse modo, a publicidade vende a falsa ideia de que a aquisição de certos bens materiais caríssimos possibilitaria ao homem contemporâneo uma potente capacidade de agregar para si todas as mulheres desejadas por ele, reduzindo-as, nessa atitude, ao nível de objeto. 

Essa violência midiática intermediada por padrões estereotipados, mensagens e valores; além de outros símbolos e ícones, transmite e reproduz na atualidade, em escala mundial, a dominação, a desigualdade e a discriminação nas relações sociais que em nome da autoafirmação sexual do homem, através da degradante condição feminina, acaba  naturalizando, ainda mais intensamente que no passado, a subordinação da mulher na falida sociedade em pleno século XXl.

Por VALTER SILVA


Valter Silva é professor e poeta.

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